• Taís

As Meninas de Renoir


Quando completei 10 anos, ganhei da minha avó uma reprodução das Meninas Cahen d'Anvers, de Renoir. Ela nunca mandou enquadrar, ficava guardado em um canudo de veludo vermelho. Toda vez que queria olhar, pegava o canudo, abria, retirava a pintura e a esticava em cima da mesa da sala com todo cuidado.


A vó explicou que aquela era uma reprodução, e o original estava em um Museu, mas gostava de pensar que o meu quadro e todos os outros que possuíamos, eram originais e tínhamos tesouros em casa.


Sempre achei tudo espetacular e por sorte tinha quem me contasse sobre os artistas, vidas e obras. Os retratos e autorretratos eram de longe meus favoritos. A vó gostava muito de Goya, tinha quadros de cenas campestres e um autorretrato onde ele figurava como um homem de meia idade.


Eu ficava olhando os detalhes, impressionada com o quanto de sua alma, um artista conseguia imprimir através das tintas. Claro que isto penso hoje, à época eu achava que a qualquer momento o homem no quadro ia piscar os olhos ou dizer alguma coisa. Muitas vezes fiquei mesmo esperando que falasse comigo.


" El Greco retrata figuras com uma perspectiva alongada. Rubens retrata as mulheres corpulentas", ela dizia. E assim fui aprendendo aos poucos a reconhecer os traços dos artistas. Ela tinha 4 livros imensos e neles vinham fotos soltas de várias obras, pareciam um álbum de figurinhas para adultos. Ali descobri meu grande crush do mundo da pintura.


Havia três autorretratos dele e eu examinava cada detalhe para que nada escapasse. Procurava alguma mensagem oculta que ele pudesse ter pintado e que somente eu entenderia. Imaginação nunca me faltou: Albrecht Dürer, pintava para mim.


Aconteceu o mesmo com Álvares de Azevedo anos mais tarde, mas ele pelo menos teve a decência de me deixar provas mais concretas, sinais mais claros. Escreveu um poema intitulado "A T" (À Taís, óbvio).


No entanto, não foi o amor impossível com o pintor alemão, nem a certeza de que o retrato de Goya jamais me contaria quais demônios rondavam sua mente em sua fase mais difícil, o que mais me entristeceu.


O mais triste de tudo foi saber que dentre aquele meu pequeno acervo afetivo, uma daquelas meninas altivas e radiantes de Renoir (Elisabeth Elisabeth, a de faixa azul), perdeu a vida dentro de um vagão de trem, enquanto estava sendo levada para Auschwitz, em 1944, aos 69 anos.


A vida, a morte e a Arte.

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