• Taís

Mosaico


Eu quebrei. Quebrei muitas vezes, quebrei ao meio e depois em mais de mil pedaços. Cacos que de tão pequenos, eram quase impossíveis de juntar.


Trabalho árduo e meticuloso: procurar um por um, espalhados pela sala da casa, pela cozinha, pelos quartos e pelo banheiro. Debaixo do chuveiro, onde muitas lágrimas escorreram pelo ralo da tristeza mais profunda.


Desapareci.


Procurei por mim mesma e não achei em lugar algum.

Não estava dentro das gavetas, nem atrás dos quadros pendurados na parede. Não estava no cesto de roupas sujas, muito menos escondida em meio às folhagens que ficavam na varanda e dançavam ao vento nas noites de luar.


Procurei, mas nem meu reflexo no espelho enxergava, quanto mais a sombra do que um dia eu fora.


Eu calei.


Calei a voz, o canto e as palavras.


As alegrias não passavam de lembranças diluídas, numa aquarela inacabada. Silêncio sufocante que gritava por socorro, melodias sem cor, livro sombrio com páginas e mais páginas arrancadas.

Dias, meses e anos da mais pura ausência de mim mesma: relógio parado sobre o console na porta de entrada da casa.


Mas esta não é uma história triste, muito menos um lamento. É apenas mais uma verdade a ser dita, mais uma história entre tantas.


Esta é sobre o começo do fim, e assim sendo, é sobre um recomeço.

02- XI-2019

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